«Os manuais de etiqueta são omissos sobre o modo
correcto de abordar e encetar uma conversa com um Prémio Nobel de Literatura.
Especialmente, um admirável e admirado Prémio Nobel de Literatura. Na mesma
semana, estiveram em Lisboa dois deles, J.M. Coetzee e V.S. Naipaul. Anote-se a
coincidência de ambos terem como "nom de plume" duas iniciais e um
apelido. E ambos pertencerem, em sentido lato, a esse grupo ganhador de Bookers
(que ambos odeiam) considerado responsável pela renovação da literatura inglesa
através dos contributos exóticos do período pós-colonial. Não tendo visto nem
ouvido Naipaul, cuja biografia autorizada é um mostruário de horrores que ando
a ler, tive a oportunidade de conhecer e falar com J.M. Coetzee.
As histórias do mau feitio de Naipaul são lenda e as
histórias do silêncio monástico e da aversão social de Coetzee também. A
Gulbenkian trouxe a Lisboa o indiano inglês das Caraíbas e o Festival de Cinema
do Estoril e Paulo Branco trouxeram a Lisboa o australiano da África do Sul.
Falar da pátria e da pertença com estes dois não seria tarefa fácil. Abordagem
abortada. De Coetzee, após discreta indagação, sabe-se que não fala ou fala
muito pouco. É conhecido por entrar e sair de ocasiões sociais sem pronunciar
uma palavra, e um amigo diz que nunca o ouviu rir. Isto não é bom.
Como falar com um Prémio Nobel é difícil, como falar
com um Prémio Nobel de Literatura é mais difícil ainda, como falar com um
Prémio Nobel de Literatura que não fala é, digamos assim, o diabo.
Existe uma regra de ouro para estas coisas: a de nunca
tentar a clássica abordagem "admiro muito o seu trabalho". Qualquer
Prémio Nobel de Literatura sabe que o seu trabalho é muito admirado e sabe que
para chegar a ser escritor, bom escritor, supremo escritor e nobelizado
escritor, é porque o seu trabalho merece consideração e nem por um instante
dele duvida. Logo, a admiração é redundante. Mais, não tem resposta. Que vai o
escritor responder? "Sim, o meu trabalho é admirável." Vai agradecer?
"Muito obrigado por achar o meu trabalho admirável."
A segunda abordagem é a abordagem desastrosa da pessoa
que acha o Prémio Nobel admirável, que acha de si mesma que é interessante e
que acha que pode começar a falar nessa qualidade para interessar o outro.
"Sabe, eu também escrevo." Esta forma de cumplicidade literária,
género "diz a formiga para o elefante no meio do deserto: já viste a
poeira que estamos a levantar?", é uma negação da abordagem. Se a pessoa
tiver um mínimo de testa sabe que só faria sentido se tivesse, também, ganho o
Prémio Nobel. Assim um tu cá tu lá entre dois génios. Raramente dois génios da
literatura se encontram na mesma sala e, se chegarem a encontrar-se, raramente
se dão bem um com o outro. Logo, a conversa "admiro muito o seu
trabalho", "também escrevo" e "também ganhei o Prémio
Nobel" é, caso ainda não tenham percebido, uma conversa utópica. Não
acontece.
Nas camadas inferiores da atmosfera, onde o ar é menos
rarefeito, é uma perda de tempo tentar interessar um escritor que já passou a
meia-idade e que ainda por cima já leu tudo e tem vários volumes de crítica
literária publicada, e excelente, erudita, pedagógica e inteligente crítica
literária (Doubling the Point, Essays and Interviews, White Writing,
Stranger Shores, Essays, 1986-1999, Inner Workings, Essays,
2000-2005), na obra de um desconhecido. Ou de um aspirante. O único modo de
interessar o Prémio Nobel seria dizer: "Sou astronauta e parto em breve
para Marte." Ou: "Sou espião e trabalho para os serviços
secretos." Pode ser que um pedacinho de curiosidade seja levantado na
ponta, como naquelas embalagens herméticas. O êxito da manobra não é garantido.
A não ser que o espião se chame Graham Greene. Ou Bond, James Bond. Tirando
isto, só alguém chamado Obama ou Osama pode interessar a criatura. "Hi, o
meu nome é Obama e acabo de ser eleito Presidente" é um quebra-gelo, e
"Hi, o meu nome é Osama e vivo no Paquistão", também.
Menos que isto é duvidoso que faça erguer uma
sobrancelha a John Maxwell Coetzee. Não bebe, não fuma, não come carne e faz
várias horas de exercício físico violento, tipo "mountain bike",
antes de começar a escrever. Um escritor destes não se impressiona facilmente.
"Hi, my name is Lance Armstrong" talvez resultasse.
Restam duas abordagens. A tímida consiste em fazer o
mesmo que o escritor e não pronunciar uma palavra durante todo o tempo em que
se partilha o que quer que seja com ele, o ar da sala ou uma refeição. A
abordagem pode ser confundida com arrogância. E a distraída, género "eu
sei que você é um Prémio Nobel de Literatura e que admiro muitíssimo o seu
trabalho e que não tem paciência nenhuma para ouvir o que tenho para dizer
(implícito e nunca fraseado), mas li aquele seu artigo sobre a Irène Némirovski
e acho que não tem razão em dois pontos". O escritor levanta um décimo de
milímetro de sobrolho e pergunta quais são. Dado o primeiro, que ele rebate,
quando chegamos ao segundo a conversa está começada e é só não nos enervarmos.
Convém ter lido o artigo. Esqueci-me de pedir uma assinatura para o meu Disgrace.
Ou para o meu Slow Man. Depois, li na Internet que a assinatura dele
vale muito, porque quase nunca assina livros. "Slow woman."», por Clara Ferreira Alves, Jornal Expresso.
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